Os passos lentos que a Moda Plus Size tem dado no grande mercado

Semana passada rolou mais uma edição da São Paulo Fashion Week e a palavra da do evento de moda mais famoso do Brasil foi representatividade. Se antes o ambiente da moda era composto apenas por pessoas consideradas dentro dos padrões de beleza eurocêntricos, hoje os produtores e estilistas não conseguem mais ignorar a pressão popular que implora por diversidade nesses espaços. Negros, trans, deficientes, e, claro, gordas desfilaram

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MC Carol de Niterói arrasando na passarela da LAB

Na penúltima edição da SPFW, a Lab Fantasma trouxe pela primeira vez uma modelo gorda pisando na passarela do evento. A Bia Gremion usa manequim 60 e foi o super destaque do desfile. Esse ano, a marca repetiu a dose e levou MC Carol (uma mulher gorda, negra e periférica) para a passarela. O desfile da Lab é um dos mais aguardados por levantar com vigor a bandeira da representatividade em seus modelos. A grife, do rapper Emicida, convidou também várias jornalistas, modelos e blogueiras gordas para vibrarem junto.

Outra grande surpresa nesta edição foi a apresentação da nova coleção do Ronaldo Fraga. Buscando “dar luz aos invisíveis”, o estilista colocou em seu elenco pessoas totalmente distintas do que estamos acostumadas a ver nas semanas de moda: idosos, deficientes físicos, transexuais, descendentes de índios e Fluvia Lacerda, a top model Plus Size que mesmo tendo quase quinze anos de carreira, nunca havia pisado nas passarelas da semana de moda mais relevante do país. Ronaldo Fraga é conhecido por celebrar a diversidade em seus desfiles – na última edição, abordou a questão dos refugiados e também da transexualidade.

Ronaldo Fraga SPFW N44 Verão / 2018 foto: Ze Takahashi / FOTOSITE
Fluvia Lacerda desfilando para Ronaldo Fraga
foto: Ze Takahashi / FOTOSITE

Hoje o estilista Alexandre Herchcovitch anunciou o lançamento de sua primeira coleção destinada ao público Plus Size. Em uma collab feita com a Elegance All Curves, as peças assinadas pelo estilista – que tem mais de vinte anos de carreira – vestirão mulheres que usam entre 44 e 54. A parceria tem ares de super produção – as fotos da modelo francesa Clémentine Desseaux foram feitas pelo consagrado fotógrafo André Schiliró. Mas, apesar do furor de ter um grande estilista criando modelos em tamanhos maiores, algo me incomodou e eu resolvi ler um pouco a opinião de outras amigas gordas pra ver se era só coisa da minha cabeça. Não, não era.

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Uma coleção Plus Size assinada por um grande estilista é um passo dado? Sim. Mas, honestamente, eu gostaria de ver esse tipo de parceria em grandes lojas do varejo. Joulik, Blue Man, Pat.Bo e o próprio Herchcovitch já lançaram coleções para a C&A, por exemplo, e os tamanhos conseguem ser ainda menores que o padrão da loja.

Parece que as grandes grifes e seus estilistas estão aos poucos entendendo que a moda mais do que nunca é uma questão social e precisa ser vista como tal. Não adianta só fechar collab com marcas de moda Plus Size, até porque são poucas que tem condições de firmar esse tipo de trabalho com estilistas ilustres e contratar fotógrafos de grandes editoriais. Precisa aumentar a própria grade, levar mulheres maiores para os grandes eventos de moda e celebrar todos os tamanhos. Porque sem isso, vira só mais um sanguessuga descobrindo que gorda gasta dinheiro pra se vestir – e esse tipo nós já estamos cansadas de ver.

mari-rodrigues-hoje-vou-assim-offMariana Rodrigues
Carioca, 30 anos, gorda. Tagarela de carteirinha, fã de chá gelado e viciada em bons debates na internet. Apaixonada por moda e televisão, escreve sobre esses e outros assuntos também em seu blog aquelamari.com
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Comentários pelo blog

5 comentários

  1. Eve comentou:

    A pequenos passos acredito que a moda um dia seja universal, que o mesmo vestido que eu gostei no manequim 34 tenha pra eu vestir no tamanho que eu quiser.
    Linda a coleção nova do Alexandre Herchcovitch, mas precisamos ter isso em lojas de departamento, lojas “possíveis” e acessíveis a nós relés mortais.
    Eu tenho fé inclusive que toda questão moda seja democratizada em breve. Sonho em entrar numa loja de lingerie e encontrar sutiãs com dois tamanhos e sem precisar parcelar no cartão…

  2. Kathia comentou:

    Excelente post, como sempre, Mari. Muito bom ver que as grifes estão olhando para o mercado da diversidade onde gordas ( detesto esse negócio de “gordinha”. Sou gorda mesmo!) também tenham opção de andar na moda sem gastar o salário inteiro. Bjs pra você e pra Ana.

  3. Bianca Beatrice comentou:

    Mari, que texto ótimo!

    Sou fã do Herchcovitch antes mesmo de saber o que era moda. Adorava as coleções que ele assinava e hj adoro as roupas dele.

    Mas, como garota-comum-tamanho-42-44 nunca me vi usando nada da marca dele pq simplesmente não me entram…
    Qnd vi as fotos no Instagram dele, pensei “ao seu invez de fazer isso pq simplesmente não faz roupa de todos os tamanhos”. ???

    Pq, certamente, as roupas da Herchcovitch; Alexandre não serviam e as da A Lá Garçone continuarão não servindo em pessoas normais

  4. Tina comentou:

    Adorei esse vestido floral! Onde encontro essa marca no RJ?

  5. Neila comentou:

    Mariana
    Temos uma empresa de moda plus size em Brusque Santa Catarina a Finapallola adoraria que vc conhecesse nossos produtos!!!
    bjs
    Neila