Guia para entender tipos de fibras e tecidos

Há alguns anos eu comecei a observar as etiquetas internas das roupas e a querer saber melhor o que eu estava levando. Já cansei de entrar em loja com a promessa de levar uma blusa de ~sedinha~, quando na verdade era um tecido sintético que esquentava no primeiro verão forte do Rio – e claro que custando o preço de uma peça de seda.

Já faz parte do ritual de escolha das minhas roupas e das clientes virar a roupa para conferir a composição na etiqueta interna, tentar saber ao máximo sobre a origem daquele tecido, perceber o toque se é mais áspero ou se esquenta quando friccionado, orientar melhor quem eu atendo em consultoria de estilo se aquele tecido caberá ou não na sua vida – tem gente que não quer gastar a mais com lavanderia, e aí, como faz?

Para criar um guia bem fácil para as leitoras entenderem um pouco mais sobre tipos de fibras e melhores escolhas em tecidos (e até sobre aquelas bolinhas terríveis que se formam na roupa!), eu convidei a Manuella Antunes, que é formada em Engenharia Têxtil, para escrever esse post comigo e detalhar melhor sobre a especificidade de cada tipo de fibra e nos ajudar nas escolhas. =)

E vocês sabem a importância de entendermos um pouquinho sobre composição dos tecidos antes de comprarmos?

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colete misturinha de viscose com linho: fresquinho!

Ao sacarmos qual é daquele tecido que estamos comprando, compreendemos melhor se ele se adequará às nossas necessidades; sobre a sua manutenção (precisa lavar à mão, ou só a seco, na lavanderia?), se é o ideal para o clima da sua cidade e, principalmente, se aquela peça vale o quanto estão cobrando da gente.

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Vamos lá, começando pelas FIBRAS!

As fibras podem ser naturais, artificiais ou sintéticas. Cada uma tem suas próprias qualidades e características, e dependendo do modo como o fio é fabricado ou se houver alguma mistura na composição, o desempenho e a aparência do tecido podem ser afetados. Aí a gente acaba levando aquela peça super quente, achando que é leve e fresquinha e a roupa fica na gaveta, sem uso. Por isso o primeiro passo antes de comprar a peça, é olhar a etiqueta de composição!

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As fibras naturais são o algodão, o linho, a lã e a seda, todos de origem animal ou vegetal. Eles duram mais e são mais confortáveis. Além disso, não dão cheiro ruim, sabem? O corpo “respira” melhor quando usamos roupas feitas desses tecidos, por eles justamente não esquentarem tanto.

As fibras sintéticas, como poliéster, poliamida e acrílico secam rápido e não amassam tanto, mas infelizmente não deixam o corpo transpirar direito e por isso dão mais cheiro, apesar de serem boas em algumas ocasiões como viagens ou para quem fica sentado/se mexendo o dia todo. Outro ponto negativo é que dão as famosas “bolinhas” na roupa, deformam mais na costura e desgastam mais rápido, ainda mais nas lavagens.

As artificiais são fibras produzidas em laboratório, porém, utilizando como matéria-prima polímeros naturais de origem celulósica ou proteica, por isso são mais frescas em dias quentes. As mais comumente usadas são a viscose, o acetato, o Lyocel e o Modal.

A produção de um tecido natural pode afetar o meio ambiente de forma mais prejudicial do que um tecido artificial/sintético se ele utilizar substâncias químicas perigosas no seu processo e colheita, além da possibilidade de muitos tecidos artificiais serem feitos a partir de reciclagem, como garrafas pet ou de novas tecnologias que não se utilizem de sofrimento animal, como a seda desenvolvida a partir dos cachos das bananeiras, por exemplo.

A maioria dos tecidos feitos a partir de fibras naturais e/ou artificiais são os mais adequados para dias quentes. O que não significa que elas não podem ser utilizadas nas estações mais frias: a lã e o couro, por exemplo, são fibras naturais com maior isolamento térmico, por isso se encaixam perfeitamente em climas frios.

As fibras naturais quando misturadas com as sintéticas podem ficar confortáveis em dias mais frescos. Um tecido que tenha uma composição mista de poliéster e algodão, por exemplo, além de ter um precinho mais em conta, amassa menos, porém esquenta mais. Isso porque as fibras sintéticas não permitem que a pele respire, assim não absorvendo o suor como as naturais, não sendo tão confortáveis.

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E AFINAL, QUAIS SÃO ELAS?

ALGODÃO

É uma fibra natural, longa e resistente, o que garante qualidade e durabilidade ao tecido. Suas características permitem que a pele respire, o que é fundamental em dias quentes, pois o algodão absorve a umidade e seca facilmente, evitando que o suor fique no corpo.

Devido a sua resistência e durabilidade, a fibra de algodão tem uma versatilidade muito alta originando tecidos de boa qualidade tanto para os dias quentes como para os dias frios, sendo o pima e o egípcio as fibras de maior qualidade.

O cetim, o tricoline acetinado, o crepe e a cambraia, por exemplo, são tecidos que tem o algodão como base, são leves e ideais para dias quentes. Já a gabardine é um tecido mais adequado para os dias frios. Também pode ser encontrado misturado com a microfibra, que dá a ele propriedades impermeáveis.

Com tanta produção de algodão, os agricultores utilizam fertilizantes e pesticidas contaminando o solo e lençóis freáticos, afetando a saúde de comunidades e do solo, além de serem absorvidas pelas fibras e entrarem em contato com a nossa pele.  A produção de algodão orgânico ainda é cara, mas tem baixo impacto ambiental e é mais saudável para agricultor e consumidor.

Um projeto incrível que temos aqui é o da Natural Cotton Color, que desenvolve itens de moda a partir do “Algodão Colorido da Paraíba”, como é localmente conhecido, e prega o comércio justo, já que ele é plantado por pequenos produtores nordestinos. Como o algodão já nasce colorido, não necessita de qualquer tipo de tingimento químico, economizando assim 87,5% da água que seria consumida num processo convencional de produção e acabamento de malha ou tecido.

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LINHO

Também faz parte das fibras naturais e tem propriedades semelhantes às do algodão. Porém, a sua resiliência – propriedade de retornar à forma original após ter sido submetido a uma deformação elástica – é bem baixa, por isso o linho amassa tanto (embora essa seja uma característica “chique”) e é tão difícil de passar. O linho pode ser misturado com outras fibras, como algodão ou viscose, por exemplo. A mistura origina um tecido com propriedades de maciez, melhor caimento e passadoria e ainda é mais em conta.

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Blazer de linho com forro de algodão comprado na C&A por R$89,90

VISCOSE

É considerada uma fibra artificial, pois é feita a partir da celulose, extraída de plantas e árvores. Os tecidos que têm a viscose como base são leves e frescos, pois, assim como o algodão, absorvem a umidade e secam com facilidade. Outra vantagem é que tecidos de viscose e/ou mistos tem um precinho mais em conta que alguns tecidos 100% algodão. Como eles são semelhantes entre si, em alguns casos vale a substituição. A única desvantagem da viscose é que amassa facilmente.

SEDA

Fibra natural obtida do casulo do bicho-da-seda, é considerada a fibra mais resistente além de ser longa e bem macia. Não tem tanto brilho e apresenta alta absorção, permitindo que a pele respire, deixando seu uso agradável nos dias quentes. Porém, o preço da seda costuma ser um pouco alto, então você pode fazer a Bela Gil e substituí-la pelo tricoline acetinado que é 100% algodão e tem um dos lados mais brilhoso.

Algumas marcas trabalham com formas não convencionais ao processo, como a estilista Flavia Aranha, que utiliza em suas peças a seda produzida manualmente de casulos descartados pela indústria convencional.

TENCEL

Tencel ou Modal são os nomes comerciais do Lyocel. Uma fibra artificial desenvolvida para ser ecologicamente correta (a tecelagem Santa Constância desenvolveu um grupo de tecidos que consome menos energia e seu descarte promove menos poluição), por ser biodegradável e produz um tecido resistente, com um toque suave e que se modela como a seda. Macia como o algodão, possui bom caimento, levemente brilhosa e tem uma boa resistência à umidade.

Fibra natural protéica feita a partir da tosa de ovelhas, carneiros e cabras. Sempre que falamos em lã, a primeira coisa que vem à cabeça é aquela blusa quentinha ou aquele casaco que pinica, só que não é assim que a banda toca, haha! Feita de 100% lã, a lã fria é adequada ao clima quente. Tecidos de lã fria são compostos por fios muito finos, por isso são considerados leves, confortáveis e, principalmente, ideais para roupas de alfaiataria.

Ela é vendida como Super 100, 120, 150 ou 180 – Dica: quanto maior o número, mais fino o fio. Conforto garantido!

A diferença entre os tecidos de lã fria e os de lã tradicional, é o fio. No caso das roupas feitas de lã tradicional, o fio é mais grosso. Por isso as roupas são mais pesadas e esquentam mais, sendo mais adequadas para o inverno.

POLIAMIDA (Nylon)

É resistente, leve, mas quase não absorve umidade, por isso seca muito rápido e não precisa ser passada. A lycra é muito utilizada com a poliamida para confeccionar lingeries e sportwear.

POLIÉSTER

É a fibra sintética mais utilizada, principalmente em misturas quando se quer diminuir o aspecto amassado do tecido. O poliéster é originado do petróleo por meio de recursos não renováveis – ou seja, é um plástico, por isso é pouco respirável e não permite tanta troca de calor com o meio externo, esquentando mais e deixando mau cheiro.

Ele é comumente encontrado em misturas nas quais é usado para reduzir o aspecto de amassado do tecido, tornar o toque macio e adicionar propriedades para que seque sem enrugar e pode ter características ecológicas sendo fundido e reciclado, com a fibra fabricada a partir de garrafas plásticas, por exemplo.

ACRÍLICO

Tem o toque e a aparência da lã mas é mais fácil de lavar e não provoca alergias, mas forma pilling (as famosas e odiadas bolinhas).

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O pilling pode aparecer em função da composição do tecido, do tipo de fio, do acabamento e do uso, ó:

Composição: quando maior a porcentagem de poliéster/fibra sintética presente no tecido, maior a possibilidade de fazer bolinha.

Tipo de fio: quanto mais longo o fio, menor a probabilidade de aparecer bolinha. Pois as fibras longas proporcionam durabilidade, maciez e conforto.

Acabamento: na fase de tingimento dos tecidos há um processo chamado chamuscagem – elimina as pontas das fibras por queima – e isso contribui para que o pilling não apareça.

Uso: a fricção (atrito + calor) é o que provoca o aparecimento do pilling na maioria das vezes. Não só no momento que usamos a peça, mas também na hora de lavar, como sobrecarregar a máquina ou colocar tecidos de composições muito diferentes na mesma lavagem. Isso pode fazer com que haja quebra das fibras e apareça o pilling.

CONCLUSÃO

Não somos muito fãs de fibras sintéticas e mesmo para temperaturas mais frias não achamos a melhor escolha, mas também queremos priorizar as empresas que utilizam fibras orgânicas e mão de obra baseada no comércio justo. As sintéticas sempre esquentam, te deixam desconfortáveis e quando chega ao final do dia, a sua roupa tem aquele cheirinho característico de suor não absorvido, além de serem piores para o descarte.

Por isso andamos que nem doidas olhando as etiquetas das roupas, aquelas que ficam na parte de dentro, trazendo vários símbolos sobre a forma de lavar e manter a roupa, mas principalmente a composição dela.

Assim como as camisas 100% poliéster: não que seja ruim você ter uma, mas não deveriam custar o preço de uma camisa de seda! A qualidade não vai ser a mesma e você não vai certamente conseguir usá-la no calor. A não ser que você queira cozinhar dentro da roupa, rs! Se você mora numa cidade quente o ano todo, é muito melhor investir em camisas de algodão, linho ou até viscose, que não esquentam tanto.

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Além de todas as desvantagens que já falamos, são nos tecidos feitos de fibra sintética (100% ou mistos) que aparecem as detestáveis bolinhas. Aquelas coisinhas que vão aparecendo pela sua roupa – geralmente onde sua bolsa fica batendo ou na parte interna da coxa – e você usa de várias técnicas para tirá-las, mas não adianta. Elas sempre voltam!

Por isso que quem quiser passar uma imagem mais elegante, como em eventos, festas ou no trabalho, deve investir mais um pouquinho em peças com qualidade, principalmente no tecido, para garantir uma sofisticação maior.

Pro dia a dia pode ser melhor economizar um pouco e apostar em roupas de tecidos sintéticos ou mesclados (já que não somos ricas, rs) e reservar aquelas camisas mais bacanudas para alguma reunião ou evento mais importante, que super dá pra mesclar com partes de baixo também de tecido natural, misturado ou até sintético.

Posts que complementam o assunto:

Cuidados ao lavar e passar roupas

As aparências enganam ou a não-roupa de verão

Sobre fibras e manutenção das roupas

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Comentários pelo blog

18 comentários

  1. Bia comentou:

    Ana, pode ser tara de jornalista, mas ó, poucas coisas na vida me deixam mais feliz do que informação de qualidade!!!
    Muitos dedões pra cima pra você por esse texto!
    Beijos

  2. Kátia Rodrigues comentou:

    Ana! Como é mesmo esse negócio de saber como o tecido esquenta quando friccionado? Explica de novo, por favor!

  3. Gi comentou:

    Ana, achei este post super instrutivo! Faz tempo que comecei a repensar essa questão da qualidade dos tecido, e foi influência sua, viu?! Aí percebi que marcas bacanas chegam a cobrar cerca de R$ 300 numa camisa de poliéster, enquanto outras vendem seda a este mesmo preço numa promoção! O segredo é ficar atenta, né?
    Bjs e parabéns pelo trabalho que vc tem realizado.

  4. Elisa comentou:

    Como não amar seu blog?!?!? Valiosíssimas informações! Obrigada.

  5. Bruna comentou:

    Oi Ana!

    Que post ótimo! Adoro ler informação sobre tecidos e a qualidade deles, sou a chata das etiquetas nas lojas graças à você 🙂
    Aliás, alguém já reparou que as informação de composição das etiquetas da Zara são as mais difíceis de ler? Ficam nas letrinhas miúdas junto com outras infos de CNPJ/Importadora em várias línguas, sei lá eu, só sei que outro dia tive que pedir ajuda pra vendedora pra encontrar! Mancada isso aí…

    Mas eu me sinto tão bem, tão feliz, só por ter adquirido esse conhecimento que dá vontade de estudar até. Pena que o curso que gostei da USP só tem diurno (sou de SP, lá tem um que chama Têxtil e Moda e a grade curricular parece bem legal) e não tô podendo parar de trabalhar no horário comercial, risos. Quem sabe não encontro algum outro curso parecido, sigo na busca!

    Beijão ;*

  6. Bruna Veiga comentou:

    Post maravilhoso!! Dicas valiosíssimas!!

  7. Rebecca comentou:

    Ana, amei esse post. Desde q conheci o blog, observo a composição das roupas, analiso se vale a pena pagar. Estou mais consciente, informada e sem pena em dar um valor mais alto num produto de fibra natural e produzido no Brasil. Obrigada. Bjs

  8. Anne Koehler comentou:

    O tipo de post que eu estava esperando!!
    Muito obrigada, Anna!

  9. Anna Camila Brito Ferreira comentou:

    Também notei que o acetato está classificado em duas categorias…
    Fora isso, post perfeito pra variar!
    Tb sou a louca da etiqueta e mesmo saindo pra comprar determinada peça, se o tecido (além do preço) não for bom… fora! Rss

    1. Ana Carolina respondeu Anna Camila Brito Ferreira

      opa, corrigido! 😉

  10. FERNANDA MARTINS comentou:

    Parabéns por seu trabalho.
    Útil!

  11. Ariana Melo comentou:

    Ana! Esse é um post pra guardar pra vida! Vou salvar aqui. Muito obrigada pelas informações! 😀

  12. barbara Ferreira Cavalcante comentou:

    Post muito didático e, acima de tudo, muito útil.

    Vou até salvar para consultas futuras

  13. christiane comentou:

    Excelente post, bem completo Ana. De fato sabemos que o poliéster esquenta mais, porém quem trabalha no ar condicionado o dia todo e anda de carro dá pra usar tranquilo. Algumas realmente tem qualidade bem ruim, até no toque vc percebe, mas tenho umas camisas da c&a 100% poliéster que já usei horrores e estão ótimas. bjs

    1. Ana Carolina respondeu christiane

      Ah, sim, Chris, eu também! Depende da trama, do tipo de tecido. Eu tenho também, mas como trabalho pra lá e pra cá, já me limita mais…tudo depende do estilo de vida da pessoa! beijoca!

  14. Martinha comentou:

    Amei esse post!! Mudei minha maneira de comprar, agora primeira coisa que vejo, até mesmo antes do preço…

  15. Linda comentou:

    Amei o post, gostaria que tivesse mais fotos de cada tecido.

  16. Natalina Cavalheiro. comentou:

    Amei saber sobre as composições das roupas trabalhei numa firma que a composição dos tecidos tinham que ser bem visivel, não compro roupa sem olhar a composição obrigada pela pauta.